sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Poesia desses tempos, escrita noutros tempos.

Os ombros suportam o mundo

___________Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: 


meu Deus. 

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais:


meu amor.


Porque o amor resultou inútil.


E os olhos não choram.



E as mãos tecem apenas o rude trabalho.


E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.


Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem 


enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.


E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice,


que é a velhice?


Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de


uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios


provam apenas que a vida prossegue


e nem todos se libertaram ainda.


Alguns, achando bárbaro o espetáculo,


prefeririam (os delicados) morrer.


Chegou um tempo em que não adianta morrer.


Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.


A vida apenas, sem mistificação.


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